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Qual o futuro do ser humano na Terra?

Tudo influencia o todo. Precisamos pensar cosmicamente e agir global e localmente. O que está em risco é a sociedade humana.

Doutor em Ecologia, analista ambiental do Ibama e professor da Universidade Católica de Brasília (UCB), Genebaldo Freire esteve no Ceará ministrando a palestra "Desenvolvimento Sustentável – Arrogância e Utopia" e fala a respeito de mitos e fatos do futuro do ser humano sobre a Terra.

"Desenvolvimento Sustentável – Arrogância e Utopia". Isso quer dizer o quê?

Significa que, mantidos o cinismo das formas de produção, crescimento populacional, aumento do consumo e políticas totalmente afastadas da relação ser humano-ambiente, não há a menor possibilidade de desenvolvimento sustentável. Nem teoricamente. Esse termo é extremamente arrogante. O que precisamos é de "Desenvolvimento de Sociedades Sustentáveis". Essa história de "salvar o planeta" é bobagem. Primeiro porque o planeta não está em risco, segundo porque não teríamos condições de salvá-lo, nem ele precisa disso. O planeta sempre esquentou, passou por períodos de glaciação e vai continuar sua escalada. Daqui sete e meio bilhões de anos o sol apaga, congela. Ele tem seus próprios mecanismos de regulação.

A Terra não está em risco como se propaga?

O que está em risco é a sociedade humana, conceitos de bem-estar, democracia, respeito ao próximo, organização social. Isso tudo está ameaçado porque tivemos uma educação que nos remete a sermos consumidores úteis e não a pensarmos nossa relação com o ambiente. Somente nos últimos tempos, com o aquecimento global, percebemos a necessidade de mudanças radicais em nosso estilo de vida. É preciso questionar se alguém vai abrir mão, por exemplo, de comer carne vermelha, não pelo vegetarianismo, mas pela consciência de que a pecuária destrói florestas com desmatamentos e queimadas. Além disso, tem a questão da ética. Muitos animais são aprisionados de forma cruel, passam a vida sem se movimentar para garantir uma carne tenra e macia. A questão é quem vai abrir mão de certos costumes em nome da ética e da proteção ao meio ambiente.

E o aquecimento global?

A Universidade de Columbia publicou em setembro o índice de vulnerabilidade de 100 países. Lugares que estão mais em cima, como Finlândia, Islândia, Noruega, Dinamarca, estão menos vulneráveis. Daí você encontra o Japão, que é uma ilha, em sexto lugar na lista. Por quê? Porque há mais de 15 anos eles investem em adaptações para se ajustar ao aquecimento global. A Holanda, que tem 57% de suas terras abaixo do nível do mar, está em 14o lugar. Países como EUA, Alemanha, França, todos estão investindo nisso porque sabem o que pode acontecer nos próximos 10, 20, 50 e 100 anos. O Brasil está em 56o lugar em vulnerabilidade. Isso mostra que não temos alta governança.

Alta governança?

Isso mesmo. Quer dizer que, apesar de sermos o oitavo país mais rico do mundo, temos baixa capacidade de respostas. Isso acontece por diversos motivos, mas, principalmente, pela burocracia e corrupção. Temos tecnologias, cientistas brilhantes e o mapa de vulnerabilidade do Brasil já está feito. Mas falta a parte seguinte, que são os planos de adaptação e mitigação. Estamos parados em relação a isso. Sabemos que terras boas vão virar semi-áridas e, depois, áridas. Sabemos que as regiões que mais vão sofrer no Brasil são Nordeste, Sul e Sudeste, pelas mudanças profundas no regime de águas. A essa altura deveríamos estar elaborando planos de mitigação. Esse é o grande desafio. Fortaleza, por ser litoral e estar no Nordeste, está dentro da área de altíssima vulnerabilidade. A questão de disponibilidade de água, perda de safras e migração são coisas que precisam ser pensadas. Até 2050, quem está hoje com 10 anos de idade, vai passar sufoco, caso não haja planejamento agora. Não há necessidade de pânico, mas é preciso competência, envolvimento e seriedade para que seja feito o que outros países já estão fazendo.

Nosso fim pode ser adiado, é isso?

A destruição é inevitável. O que é evitável é apressar o processo para ficar mais tempo aqui e evoluir. Daqui três bilhões de anos, a Terra não vai mais reunir condições para que nossa espécie continue, pelo menos como é hoje. A evolução biológica não acompanha a evolução cultural. A cultural é muito mais rápida. Biologicamente levamos milhares e milhares de anos para incorporar adaptações, digamos, casuais, de uma mudança na composição química da atmosfera. E se não tivermos mais 21% de oxigênio, mas 22%? Todos os seres humanos morrerão. Porque não há como se ajustar caso a mudança seja rápida. Biologicamente não teremos resposta. O grande fascínio da vida são os mistérios que nos cercam, a contemplação, a reflexão sobre esses mistérios. Infelizmente as políticas não têm consciência disso ou não buscam tratar disso.

A conscientização pode minimizar os impactos naturais?

Veja bem, não acredito em grandes catástrofes ecológicas, mas muitas populações irão migrar passando fome. A essa altura é inevitável, aliás, já está acontecendo. São 36 nações em guerra por causa de água, com recursos minados pela corrupção. O grande papel do movimento ecológico no mundo foi trazer as questões da análise sistêmica, de ver o todo, para que não se perca no tempo apenas ganhando dinheiro e comprando coisas. A indústria do entretenimento, por exemplo, mantém a pessoa presa diante da televisão, sem tempo para meditar, refletir ou buscar vida plena. As pessoas ficaram ocupadas em ganhar dinheiro e esse tipo de valor corrompeu demais, gerou valores perigosos. Ninguém poderia imaginar, há 20 anos, que alguém tivesse coragem de falsificar medicamentos para pessoas com câncer ou colocar soda cáustica em leite servido para idosos e crianças. Comportamentos dessa natureza são sintomas de afastamento da missão maior. Hoje, o grande desafio da educação é trabalhar valores, ética. Quando eu vejo educação ambiental centrada em coleta seletiva, despoluição, hortas, digo que é pouco. Temos que fazer isso e muito mais. Isso representa apenas 5% do problema.

É como ampliar a idéia de causa e efeito?

Exato. É preciso saber que são necessárias mudanças mais profundas que simplesmente proteção da camada de ozônio, economia de água ou energia elétrica. Claro que são fatores importantes, complementam elementos de gestão ambiental. Mas, o que se exige hoje, é muito além de separar e encaminhar lixo para reciclagem. É preciso repensar o consumo. Há necessidade de recusar certas coisas, há necessidade de consciência. E isso não se faz de uma hora para outra. Estamos em processo evolucionário, no topo de mudanças e transformações que vão mexer com estilos de vida. As empresas, por exemplo, no início incorporaram a questão ambiental forçadamente. Agora fazem porque dá lucro. Quando elas economizam matéria prima, quando melhoram o marketing ambiental, dá lucro. É preciso ter estados, empresas, pessoas que incorporem a necessidade de mudar a relação com o ambiente. Isso demora algumas décadas, mas acredito que estamos em um bom caminho.

Para onde caminha a humanidade?

Vivemos um período fascinante. Talvez o mais exuberante da escalada humana na Terra. Porque estamos mudando paradigmas e o aquecimento global veio facilitar isso. Ganhamos esqueleto ósseo e corpo físico recheado de água e proteínas para vivermos a experiência humana por determinado período de tempo. Nossa experiência é para a evolução. Nosso papel é produzir transformações. Todo o universo está assim. Mas nosso equipamento sensorial é bruscamente atrapalhado pela religião e educação. Tem um pensador inglês que diz que o ser humano nasce ignorante, mas são necessários vários anos de educação para que ele se torne estúpido. A educação como está virou comércio e com baixíssimo potencial de preparar pessoas tolerantes, compreensivas, éticas, perceptivas, que tenham clareza do que vieram fazer aqui. Tudo embevecido pelo consumismo. A grande preocupação é reunir dinheiro para comprar coisas e pagar impostos. Depois envelhecem, entram em depressão e morrem. A vida é mais que isso e o tempo curto para vivermos essa experiência. É preciso aproveitar intensamente cada dia, minuto, segundo. Ser consciente do próprio papel, dizer o que pensa, discordar elegantemente e dar a contribuição efetiva.

O homem ainda tem a idéia de ser o centro do Universo?

Repare que temos um milhão de anos sobre a terra. Os gatos têm 35 milhões de anos, as lagartixas, 50 milhões, as samambaias, 400 milhões de anos. É muita pretensão acreditar que tudo isso aqui foi preparado para "nossa" vinda. Imaginar que o planeta foi preparado para receber a espécie humana é arrogância e falta de percepção do que significa a vida na Terra. Somos apenas elo integrante da teia da vida que não deveria ser chamado Planeta Terra, mas sim, Planeta Vida. Tudo aqui foi costurado, programado, concebido para abrigar vida. Temos todas as condições para que isso aconteça. A vida no planeta é tão exuberante que se um prédio ficar sem manutenção alguns anos, a vegetação toma conta. Você encontra uma flor emergindo no meio de um asfalto a 50o C. A Terra foi concebida para abrigar vida. Nós, seres humanos, somos, apenas, mais uma espécie. Fomos guinados a sermos a coisa mais importante do planeta por meio das religiões. Erro que hoje as próprias religiões tentam consertar.

Erros que levarão tempo para serem reajustados?

O surgimento da nossa espécie aqui, a partir do momento em que nos organizamos em sistemas urbanos, tornou nossa relação complexa. Agredimos muito, nos trancamos em paredes e achamos que por meio de tecnologias resolvemos tudo. É preciso perceber como as coisas funcionam, não estamos isolados. Nosso corpo é formado por milhares de sistemas dentro de sistemas. Átomos que formam moléculas, células e tecidos. Que formam o indivíduo humano, sociedades, populações, biota, ecossistema global, sistema solar, galáxia e cosmos. E se regredir abaixo do átomo, tem os níveis de energia. Somos macro e micro ao mesmo tempo. Veja que, tanto religião quanto educação, enfiaram em nossas cabeças que somos indivíduos. Não! Somos elementos de um todo. Ao mesmo tempo pequenininhos e gigantescos. Não somos os donos da história. Temos, também, nossa importância cósmica. Hoje não falamos mais em educação ambiental para pensar globalmente e agir localmente. Esqueçamos isso. É muito estreito. Tudo influencia o todo. Precisamos pensar cosmicamente e agir global e localmente.

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